sábado, 7 de novembro de 2009

O Despertar da Primavera







“Embora nada possa trazer de volta a hora
Do esplendor na relva, da glória na flor
Nós não vamos lamentar, preferimos encontrar
Forças no que ficou para trás”

William Wordsworth, “Ode: Intimations of Immortality From Recollections of Early Childhood”


O trecho acima ilustra bem o ideário de nostalgia acerca da juventude. Todos gostariam de ter de volta as emoções do primeiro amor, do despertar do corpo e da sexualidade, o entregar à vida que escorre sem pressa e compromissos, a urgência pelo mundo. Já foi dito até que é um desperdício que a juventude seja dada aos jovens, que não sabem aproveitá-la. Decerto, isso confere mais poesia à juventude. Mas, e quando o fluxo natural é interrompido, sufocado, vilipendiado?

“O Despertar da Primavera”, de Duncan Sheik e Steven Sater, versão musical da obra de Frank Wedekind, vencedora de oito Tonys em 2006 na Broadway e que estréia versão brasileira dirigida por Charles Möeller e Claudio Botelho, canta os desdobramentos da juventude violada. E canta em alto e bom som, com afinação precisa, mostrando que musicais não são meros espetáculos escapistas, que podem sim tratar de temas densos e que muito mudou desde a época de “Escola de Sereias”.

Recentemente, o filme “The White Ribbon”, de Michael Haneke, propõe uma visão de como a dureza e rigor na criação de crianças alemãs teria sido preponderante para o desenvolvimento do nazismo. Num simples paralelo, se pensarmos que o texto de Wedekind é de 1891, mais assombrosa é sua ousadia e atualidade.

A adaptação para o formato musical poderia ter comprometido a qualidade e intensidade dos diálogos. Mas o talento de Sheik e Sater/ Möeller e Botelho dribla isso com maestria, com canções pungentes e que cantam a narrativa e atingem o espectador como muitos textos não conseguem.

A montagem é de altíssimo nível, como não poderia deixar de ser em se tratando da dupla de diretores. A cenografia de Rogério Falcão é muito inteligente e bem resolvida, usando estruturas de ferro que, além de permitir o fácil deslocamento do elenco no palco, sugere aprisionamento, retenção, como se os jovens fossem “pássaros presos na gaiola” no universo hipócrita e castrador em que vivem. A iluminação de Paulo César Medeiros é excelente e em alguns momentos chega a ser sublime, traduzindo com sensibilidade a alternância entre o universo de luzes e sombras que os jovens vivem em seu interior. Os figurinos de Marcelo Pies, o som de Marcelo Claret, a coreografia de Alonso Barros, a preparação vocal de Ester Elias, a coordenação artística de Tina Salles e a direção musical de Marcelo Castro formam o conjunto que torna este espetáculo tão forte e único.

A direção de Charles Möeller e a supervisão musical de Cláudio Botelho são excepcionais e atestam o merecimento da posição única que ocupam no panorama artístico brasileiro. O trabalho dessa dupla é de nível internacional, seu altíssimo padrão de qualidade é visível em cada cena do espetáculo e como dito por Möeller, seu trabalho vai muito além de mera cópia do original.

O elenco é fantástico e isso é surpreendente se considerarmos que é formado por atores novatos, com pouca experiência. Quem pensar que trata-se de um cast bonitinho mas nulo, vai se surpreender e muito com a força do grupo em ação. Todos estão ótimos, não há nenhum elemento destoante. Provavelmente esse êxito vem da noção de conjunto, de grupo, que percebe-se na encenação. Por exemplo, os veteranos Débora Olivieri e Carlos Gregório, que se alternam nos vários papéis adultos, trocam de igual para igual com os novatos. Olivieri está impagável como a professora de piano fazendo ótimo duo com André Loddi e tem seu melhor momento como a mãe de Melchior sendo confidente de Moritz. Gregório tem grande momento na silenciosa cena do funeral do filho. Naturalmente, entre os jovens, embora o nível seja ótimo, há diversidade, seja por características próprias ou pelo peso dos personagens. Alice Motta, Danilo Timm, Davi Guilhermme, Eline Porto, Estrela Blanco, Julia Bernat, Lua Blanco, Mariah Viamonte, Pedro Sol, Thiago Marinho oferecem belo trabalho. Bruno Sigrist tem voz muito agradável e Laura Lobo arrasa em seu solo como a menina vítima de abuso. Dois exemplos de atores com forte presença em cena que mereciam mais destaque. Assim como André Loddi, que com seu Georg é carisma puro e tem ótimo timming para a comédia, além de ser a melhor voz masculina do elenco. Felipe de Carolis está na limite do caricato, mas o fato de seu personagem ter treze anos de idade redimensiona o fato e sua performance. Informação que podia estar presente no texto, para situar o espectador. Thiago Amaral tem olhar que traga o espectador, é intenso. Seu Hanschen é um belo contraponto ao grupo de estudantes, pois não confronta e nem sucumbe, mas tira proveito das circunstâncias com o que possui. O outro contraponto é a Ilse de Letícia Colin, que se rebela em um exílio libertário. Colin está em estado de graça, esbanja carisma, sensualidade e vida e impõe sua presença de tal forma que só podemos lamentar que não esteja em cena o tempo todo. Pierre Baitelli compõe seu Melchior com vigor e energia e traduz bem toda a estupefação de sentir na própria pele o quanto o mundo pode ser sórdido. Malu Rodrigues como Wendla é simplesmente apaixonante. A caçula do elenco leva com maestria o peso de protagonista. As reviravoltas de sua frágil e ingênua personagem não devem ter sido fáceis, mas Rodrigues se desincumbe de cada uma com leveza e graça. Além de segura como atriz, Malu tem uma voz belíssima, o que só realça mais sua luminosidade. Apaixonante. Simples assim.

E temos Rodrigo Pandolfo e seu Moritz. Num espetáculo superlativo, de muitos elementos superlativos, Pandolfo é seu brilho maior. Sua performance é extraordinária, arrasadora, daquelas que definem horizontes. Sua composição é meticulosa, brilhante, crível e comovente: o tom de voz, o ar de desvario sufocado, o olhar perdido, a expressão corporal meio robótica, os pés contraídos para dentro, detalhes mínimos que fazem-se imprescindíveis para um ator do primeiro time. É um prazer e um presente vê-lo em cena, um ator que dignifica o sagrado ofício da interpretação. Tudo o que podemos esperar é que Pandolfo saiba dirigir muito bem sua carreira, pois um ator desse nível não surge toda hora. Bravo! Bravo! Bravo!

“O Despertar da Primavera” é um espetáculo de primeiríssimo nível, que entretém, emociona e faz refletir. Uma montagem para entrar para a História.



O DESPERTAR DA PRIMAVERA

Música de Ducan Sheik
Texto e Letras de Steven Sater
Baseado na obra de Frank Wedekind

DIREÇÃO
Charles Möeller

VERSÃO BRASILEIRA / SUPERVISÃO MUSICAL
Claudio Botelho

DIREÇÃO MUSICAL
Marcelo Castro

COREOGRAFIA
Alonso Barros

CENÁRIO
Rogério Falcão

FIGURINOS
Marcelo Pies

VISAGISMO
Beto Carramanhos

DESIGN DE LUZ
Paulo César Medeiros

DESIGN DE SOM
Marcelo Claret

COORDENAÇÃO ARTÍSTICA
Tina Salles

ELENCO
Malu Rodrigues
Letícia Colin
Pierre Baitelli
Rodrigo Pandolfo
Thiago Amaral

apresentando
Débora Olivieri e Carlos Gregório

com:
Alice Motta
André Loddi
Bruno Sigrist
Danilo Timm
Davi Guilhermme
Eline Porto
Estrela Blanco
Felipe de Carolis
Julia Bernat
Laura Lobo
Lua Blanco
Mariah Viamonte
Pedro Sol
Thiago Marinho

PRODUTOR EXECUTIVO
Luiz Calainho

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO
Aniela Jordan
Beatriz Secchin Braga
Monica Athayde Lopes

UM ESPETÁCULO DE
Charles Möeller & Claudio Botelho

10 comentários:

  1. Lindo o texto, assim como o espetáculo. Gostei particularmente da introdução evidenciando que as experiências da juventude são um fator universal independente do tempo ou da distância. Ler essa critica me levou de volta ao dia em que assisti a peça, me trazendo de volta cada sensação. Você tem o dom da escrita, Fabinho, que bom que está aproveitando bem isso. abs

    ResponderExcluir
  2. Bem, não sou grande adorador de musicais da Broadway, e tbém, sinceramente, não sou grande conhecedor do assunto. Mas o que posso afirmar é que seu texto, além de informativo é tbém belíssimo! Vc realmente tem o dom da escrita. Através de seu texto pude imaginar (ou até mesmo "enxergar")a beleza e a grandiosidade dessa peça, mesmo sem tê-la assistido. Além da ilustração que ficou ótima! Todo esse conjunto valorizou muito a divulgação e o entendimento sobre a mesma. Claro que não serei hipócrita e nem volúvel a ponto de deixar a impressão de que passo a admirar algo simplesmente por ler um comentário. Pois comentários existem aos montes, e na maioria das vezes, são puramente "propagandas" pra se vender o "produto". Mas sou sincero quando digo que mesmo sem ter assistido a peça em questão, e mesmo sem ter grande interesse por musicais, através do teu comentário, fiquei curioso e tbém interessado, simplesmente porque vc, além de escrever muito bem, e demonstrar grande conhecimento sobre o que escreve, tbém passa bastante segurança e sinceridade com tuas palavras. Ou seja, não é um simples comentário ou uma simples propaganda, e sim um VERDADEIRO comentário, informativo, inteligente, puro...
    ...pelo menos é o que me passa... caso esteja enganado, vc além do dom da pureza na escrita, tbém tem o dom de "vender" bem um produto, hehehe!!!
    É isso aí Fabinho, mas uma vez parabéns!

    ...KEKO

    ResponderExcluir
  3. Caramba, fiquei até com vontade de assistir! Sorte sua morar em uma cidade maior e ter tantas oportunidades culturais. Aqui não tem quase nada disso. E pra falar a verdade, nem me importo com o elenco, com a direção nem nada disso. Gostei foi exatamente do despertar da primavera. Afinal, tudo o que nos resta são as memórias. Como disse nosso sábio amigo Charlie Pace, de Lost, pouco antes de morrer. Espero não ter viajado demais. Vou ver se volto a escrever. Videogame ta tomando mto do meu tempo. hahaha =P

    ResponderExcluir
  4. lindo o post. concordo plenamente, e principalmente, com o trecho em que cita a letícia. lamento muito que ela não esteja em cena todo o tempo. e quando está é impossível prestar atenção em outra coisa, em um outro ator.

    ResponderExcluir
  5. Parabéns Fabinho, pelo texto, achei muito bem escrito!!
    Amo o Despertar, acho que está mostrando uma nova cara ao teatro, talvez, para voltar a ser o que era antes, popular, bem feito, etc!
    Abração!

    ResponderExcluir
  6. Olá,
    Meu nome é Adriana Rosa e sou cantora e compositora
    em São Paulo capital. Tive a oportunidade de conhecer
    seu blog/fotolog e gostei muito...parabéns pelo trabalho e continue
    assim mesmo. Pretendo voltar mais vezes no blog
    Deixo aqui meu blog caso queira conhecer
    meu trabalho.
    Valeus..
    Adriana Rosa
    http://adrianarosacontatos.zip.net/

    ResponderExcluir
  7. que maravilha esse texto.me encanta e me devora.parabéns

    ResponderExcluir
  8. Marcelo Reis Santos/SP7 de fevereiro de 2010 06:38

    Lendo essa crítica dá vontade de ir correndo conferir a montagem, mas infelizmente terei que esperar mais um pouco, pela estréia em SP.
    Eu não só amo musicais, mas também histórias que tratam de descobertas, desejos e libertação, emocional e sexual.
    Ao perceber o impacto e a polêmica do texto de Frank Wedekind para época até hoje, lembrei de Tennessee Williams em que seus personagens eram não só reprimidos emocionalmente, mas também sexualmente.
    É maravilhoso notar que autores que escreveram há 50 ou há quase 100 anos sejam tão atuais ao ser humano contemporâneo (não é à toa que são definidos como Clássicos).
    O triste mesmo é constatar que eles falam (e compreendem) muito mais os jovens e toda essa represão pelo que o ser humano passa, do que as “obras” atausis que são jogadas não só à juventude atual (os “Harry Potter”, “High School Musical”, “Crepúsculo” da vida) e que, mais cedo ou mais tarde, são meramente esquecidas e trocadas por outra coisa da moda da vez (alguém aí falou em Percy Jackson?, rsrs).

    ResponderExcluir
  9. Não há como descrever como esta peça é simplesmente espetacular! Simplesmente a melhor peça da dupla Moeller e Botelho! e Vamos Despertar São Paulo!!!

    ResponderExcluir
  10. Vou ser breve com um simples... ADOREI o texto :D
    Espetacular!

    ResponderExcluir